Água e diamantes

Clarity

“Não há nada de mais útil que a água, mas ela não pode quase nada comprar; dificilmente haveria bens com os quais trocá-la. Um diamante, pelo contrario, quase não tem nenhum valor quanto ao seu uso, mas se encontrará frequentemente uma grande quantidade de outros bens com o qual trocá-lo.”  (Adam Smith em Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações, publicado em 1776)

 O que Adam Smith quis dizer é que as coisas têm valor de acordo com sua disponibilidade ou raridade. Em 1776, quase 240 anos atrás, realmente, os diamantes eram mais raros e a água existia em abundância. Não que hoje diamantes sejam menos raros, mas a água está escassa. Ou estamos em uma crise hídrica, segundo o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Até bem pouco tempo, acreditava-se que bens providos pela natureza, como água, ar e luz, por exemplo, por poderem ser encontrados em quantidades ilimitadas, não podiam ter valores atribuídos, uma vez que apesar de serem úteis, não eram raros.

É claro que as pessoas querem possuir coisas úteis e raras, independentemente de qual seja essa utilidade, pois dependendo do grau de raridade, essas coisas adquirem uma capacidade de permuta tal que proporciona a troca por qualquer outra coisa rara que se queira. Mas o que comprar quando não há o que vender?

E neste ponto, quando uma determinada coisa tende a tornar-se rara, seu valor com certeza tende a elevar-se. Ou seja, o seu valor variará de acordo com a oferta e a demanda.

Os consumidores já estão pagando mais por galões e garrafas d’água. Quanto mais raro, mais caro.

E justamente por isso estão previstas multas para aqueles que mantiverem um consumo elevado e desperdiçarem água. Podemos chamar isso de “conscientização forçada”.  Evitar o desperdício, aliás, deveria ser algo que se aprende desde o berço.

Uma boa parte da população do estado de São Paulo já  passa pela experiência do racionamento, mesmo que alguns insistam em dizer que não há racionamento.

No Nordeste a seca é histórica e se arrasta ano após ano sem que ninguém faça algo para resolver o problema.

E por que deve ser sempre a população a pagar por décadas de atraso em investimentos no setor hídrico?

Mas o Brasil está sobre o maior lençol freático de água doce do mundo. E? Ou será que alguém ainda se engana achando que os recursos naturais são infinitos?

Não estamos mais em 1776 e talvez o próprio Adam Smith repensasse sua teoria nos dias atuais.

Diamantes são raros, mas a vida é mais rara ainda. E sem água não há vida.

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