Congelamento de preços e inflação inercial

dinheiro congelado

Porque congelamentos não funcionam

Esses dias li uma notícia sobre a volta do controle de preços na Argentina, em mais uma tentativa de conter a inflação que por lá está batendo na casa dos 30% ao ano. O governo argentino faz questão de frisar que não se trata de um congelamento, mesmo porque só valerá para a capital, Buenos Aires, e sua região metropolitana. Tenha lá o nome que tiver, esse tipo de estratégia não costuma dar certo. O Brasil já passou por alguns congelamentos de preços: 1986, 1987, 1989, 1990 e 1991. Nenhum deles alcançou seu objetivo de conter a inflação. Por quê?

Todo mundo entende no bolso o que é inflação, mas nem todos sabem que existe mais de um tipo de inflação. Vamos a uma breve explicação.

Existe a inflação de demanda, que ocorre quando há aumento da procura por determinados bens ou serviços e essa procura não é suprida. Como consequência, seus preços sobem.

A inflação por custos é causada pelo aumento dos custos de produção que são repassados para o consumidor final.

E, finalmente, chegamos ao “x” da nossa questão: a inflação inercial. Nela, os preços de uma economia oferecem resistência às políticas de estabilização. Nesse caso, o congelamento ou regulação. É a chamada memória inflacionária, na qual o índice atual é a inflação passada somada à expectativa futura. Com base nessa “memória”, todos os preços de uma economia são reajustados pela inflação do período passado. E é aí que está o problema. Em tese, quando os valores estão sob algum tipo de controle, não deveriam sofrer nenhum tipo de reajuste, ou esse reajuste deveria ser aquele determinado pelo governo. Mas a memória inflacionária não respeita controle, pressiona todos os preços. Como não se pode aumentar nada, ou quase nada, por vezes há o desabastecimento, como o que ocorreu à época do Plano Cruzado, quando a carne bovina simplesmente desapareceu do mercado, causando imensas filas nas portas dos açougues.

Esse tipo de política costuma surtir efeitos de curto prazo. Mas, como armas de curto prazo não funcionam contra a inflação, os reajustes acabam sendo liberados e a inflação persiste, resiste e vence, podendo retornar com índices até mais elevados dos que os anteriores à medida econômica.

Vamos torcer pelos nossos vizinhos, mesmo porque, depois da globalização, quando a economia de um vai mal acaba sobrando para todos os lados, principalmente para quem está literalmente ao lado.

Como eles disseram que não se trata de congelamento, mas sim de um controle, vai que cola.

Dê sua opinião